Thursday, June 01, 2006

Terreno Baldio - Além das Lendas Brasileiras (1977)




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Faixas:
01. Caipora
02. Saci-Pererê
03. Passaredo
04. Primavera
05. Lobisomem
06. Curupira
07. As Amazonas
08. Iara
09. Negrinho do Pastoreio



Parafernália montada! Do outro da rua, a Igreja do Calvário, antiga tenda, oferecia o cenário propício. Confusão de câmera, gravador, cabos, bloquinhos e laptop para iniciar a entrevista exclusiva com Roberto Lazzarini e João Kurk, teclas e voz do grupo mais vanguardista do prog nacional. Numa animada troca de idéias de duas horas, eles revelaram algumas das pitorescas histórias de seus 42 anos de amizade e da trajetória do Terreno Baldio da “bélle epoque” dos anos 70 até nossa atual “belle merde”

Islanders, do hard ao progressivo

Divergindo da maioria dos grupos de baile da época que tinham em seu set músicas radiofônicas, o Islanders - formado por Rodolfo Ayres Braga e Joaquim Correa, além de Lazzarini e Kurk - se orgulhava de tocar o lado B dos discos importados que colecionavam. “No dia em que morreu o Hendrix a gente fez uma homenagem. Coitado do cara que foi lá pra dançar”, nos diz entre risos Lazarini possuidor da coleção inteira de LPs do renomado guitarman, declaradamente sua maior influência, independente de ser pianista. Kurk ressalta que importava os discos que não chegavam aqui, e ao rodar a bolacha logo procurava as músicas “mais ferradas” e que viriam a ser parte do set list dos Islanders.

Grande era a euforia entre os músicos freqüentadores de bailes como o do Círculo Militar, que esperavam pra ouvir o melhor do hard e do progressivo - tal agitação já punha o Islanders no caminho da troca de sonoridade. “Tudo foi muito rápido de 72 a 76”, Lazzarini se refere às mudanças e assimilações de um som pesado, mas já experimental de Hendrix, rumo às sendas da fusão do rock, jazz e música erudita. Outro fator que direcionou tais mudanças foi a audição do álbum Three Friends do Gentle Giant, emprestado pelo baterista de um projeto de Egídeo Conde junto de João Kurk – um rock direcionado por Free e Jeff Beck. A audição “era uma coisa diferente e me bateu muito forte. Ali eu quis me embrenhar no mundo progressivo”, recorda Kurk. Logo o guitarrista Mozart Mello e o baixista João Ascenção foram recrutados junto a banda Fush; Deu-se asas a criatividade e iniciou-se o mito do Gentle Giant brasileiro!

Preparando o Terreno

Já como Terreno Baldio, o grupo fez parte do festival do Colégio Objetivo. “Eram seis bandas. Depois da gente ninguém mais quis tocar” lembra Lazzarini; “Não queríamos fazer um som na linha do Pink Floyd, com atmosferas e sintetizadores, o lance era tocar de verdade, usar contraponto, fuga e polirritmia.” Não só o publico do colégio se impressionou com as composições terrenistas; Césare Benvenuti, empresário italiano, estava na platéia e se apressou em convidar o grupo pra gravar um disco. “Os shows eram concorridos, a galera estava a fim de algo diferenciado.” Distribuídos em três contos, a trajetória do ser vigilante e os traços do terreno baldio eram contadas: Aquelôo, Pássaro Azul e Terreno Baldio. “A gente queria fazer rock com substância, algo com começo, meio e fim”. Os capítulos dos temas desenvolvidos pela banda necessitariam de, no mínimo, dois discos, sendo o debut um recorte dos três shows; Ficaram de fora peças importantes como “Relógio de Sol”, “Velho Espelho” e “Aquelôo”, retomadas na regravação do primeiro dis- co em 94, com letras em versão inglesa, e contando com a contribuição do blueseiro André Christóvam na transcrição.

Naquela época era grande a procura de empresários e produtores por bandas que faziam rock em português, visando atender a demanda do novo mercado que surgia. Correndo atrás de um contrato, Césare esquematizou uma gravação no então novo e bem equipado estúdio Pirata, de Aurino Araújo, fazendeiro irmão de Eduardo Aráujo. “Mesmo em meio a dúvidas faltei numa prova de Resistência de Materiais na faculdade de Engenharia para participar das sessões de gravação”, conta Lazzarini que chegou a formar-se na área. O disco foi gravado dentro dos padrões setentistas: ao vivo em 4 canais e com poucos overdubs. Quem operou a mixagem foi Alan Krauss, “um gênio, um crânio”, segundo Lazarini. Na música Lou- curas de Amor, “faça-me sofrer, mais uma vez”, um aparente delay programado surge nas repetições de “uma vez”; Aparente, pois esse efeito foi produzido a partir de corte e colagem nas fi tas de rolo, manualmente. A “bolacha” saiu pelo selo Pirata Gravações Musicais e Benvenuti não pode assinar a produção por problemas contratuais (na época ele trabalhava para a Continental), quem figura no encarte é Arnaldo Sarcomani mesmo sem ter tido participação no primeiro álbum do grupo.

Muito Além das Lendas Brasileiras

Mais uma vez Benvenuti aparece na história do grupo e os leva para gravadora a Continental em 1976. Conseguindo lançar um grupo que fizesse sucesso ele teria mais espaço dentro da empresa para trabalhar com grupos mais arrojados, de praxe, o Terreno entrou nesta última categoria. Falar da mitologia brasileira foi projeto de Lazarini que pesquisava, na época, o tema. Dentro da banda, as mudanças eram profundas. A urgência de mesclar o som progressivo com elementos da música brasileira e a saída de João Ascenção, substituído por Rodolfo Ayres Braga, eram dificuldades a ser superadas para a realização do segundo registro. Orlando Beghelli, escritor indicado pela gravadora, ajudou no desen- volvimento das letras do disco, nomeado por Kurk. O processo de gravação em 16 canais, no Vice Versa, abriu novas possibilidades de arranjos e overdubs, confundindo os rapazes, acostumados aos 4 canais. Mesmo não satisfeitos com o resultado da mixagem final, Kurk e Lazarini apreciam o disco que ainda teve participação de Nelson Gerab no violino, Fabio Gasparini no cello e Claudio Bernardes no baixo acústico.

Segundo disco na mão, e seis meses de espera pra um show de lançamento. O empresário de Belchior, Jorge Mello, se encarregou de trabalhar com o Terreno Baldio, o fato imprevisível foi o cantor - até então desconhecido - ter estourado junto de Elis Regina em “Como nossos pais”; o resultado disso foi o sumiço de Jorge e o conseqüente arquivamento do material de Além das Lendas Brasileiras. Tanto tempo parado não prejudicou o bom lançamento do disco, ocorrido no Teatro Ruth Escobar, auxiliado pelo empréstimo dos equipamentos de Eduardo Araújo. Existe um registro do espetáculo, em fita K7, guardado com Rodolfo Braga, que comprova a qualidade do mesmo. Marcante, o concerto recebeu convidados de pompa: “Puta som hein, garotos?”, reagiu Elis Regina frente ao arquitetado som. Ainda divulgando o LP, fecharam com um empresário da Traipú Produções uma série de shows com os Tarântulas, um grupo de samba e Lee Jackson, que “era um cara que fazia um rock bem chocolate”, palavras de Lazzarini. A “salada sonora” e a junção de diferentes tribos resultava num desagrado geral, mas rendeu divertidas histórias, esta uma lembrança de João Kurk: “Certa vez tocamos no Clube Alemão de Pirituba, na platéia, tinha uma moça dançando Quando as coisas ganham vida, que é uma música que não dá nem pra bater o pé, tamanha a mudança das fórmulas de compasso.

Texto de André Mainardi e Lucas Rodrigues de Campos, originalmente publicado no Jornal Coletivo sÓ.

Fazer o download de Terreno Baldio - Além das Lendas Brasileiras (1977).

22 comments:

Bowie Macgowan said...
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danieL said...

Mozart Mello? Fique surpreso agora...
Só ouvi o primeiro de 1976, disco homõnimo da banda. Você saberia me dizer se essa é a mesma formação do primeiro?
[ ]'ss,
danieL

fperacoli said...

Daniel,

é quase a mesma formação. A diferença é que no primeiro disco, Ascenção toca baixo no lugar de Ayres Braga.

Abração.

Ricardo Schott said...

esse selo pirata que lançou o terreno baldio é o mesmo que o nelson motta montou na philips (pra lançar jorge mautner e o barra 69)?

teapot said...

Fantastic! Thanks a lot :)

Anonymous said...

Teria como disponibilizar o primeiro disco em português? fiquei curioso!

Valeu pelo trabalho aí.

G.C.A said...

putz, depois de ouvir esse cd vo corre atraz dos outros pq esse é MTO PSICODELICO! vlw ae.

Anonymous said...

Excelente post. Lembro desta banda apenas de nome e a menção ao Gentle Giant é verdadeira - e isso não é denemérito algum pois o GG foi e continua sendo a melhor banda que já existiu na face da terra. O vocal e em especial a faixa Curupira, são uma prova desta boa influencia. Adorei este post. Parabéns e obrigado.
Fernando.

fperacoli said...

Ricardo,

até onde sei, são dois selos Pirata diferentes...

Jotaerre said...

Sempre adorei passaredo, desde menino quando ouvia na TV quase todo dia no Sítio do Pica-pau. Foi uma grata surpresa ouvi-la novamente... após tantos anos. A banda só merece elogios, compará-la com GG não a deprecia e sim valoriza.
Mais um post excencial!!
Jr.

Jotaerre said...

Antes que me xinguem:
Excencial = Excelente + essencial.
Jr.

Edson Xavier said...

fperacoli,
que grata surpresa este blog. Sou colecionador de discos e as pérolas aqui encontradas são inestimáveis. Parabéns pela iniciativa

sonekka said...

Ei, o tecladista do Terreno Baldio não era o Roberto Lazzarini?

Alex B said...

Guardando as devidas proporções, está correto chamar o Terreno Baldio de Gentle Giant brasileiro. A capacidade e versatilidade do Terreno impressiona. Gravar um disco inteiro mesclando progressivo com ritmos regionais brasileiros...assim, como se fosse simples e natural, é para verdadeiros artistas. Indispensável para saber o que foi o prog brasileiro dos anos 70

fperacoli said...

Pessoal,

o link já está funcionando novamente. Have fun!

Capitan Aguirre said...

Cara! Muito lisonjeado de ver o disco que eu gravei aqui...mas por favor consertem estes erros primários. Meu nome é Rodolfo Ayres Braga(ex baixista das bandas Joelho de Porco e Terreno Baldio).
O nome do baterista é Joaquim Correia. Toquei no Terreno Baldio de 1976 a 1978, quando saimos Mozart e eu.
Para saber mais:http:capitanaguirre.multiply.com
http://www.rodolfobragabass.cjb.net

fperacoli said...

Grande Rodolfo,

Já providenciei as devidas alterações. É uma honra ter a sua visita aqui no meu blog. Pena que esse disco nunca saiu em CD e o primeiro do Terreno Baldio encontre-se esgotado.

Abcs,
Fábio.

Lucas said...

gostaria de agradecer pela reprodução da maatéria que fiz junto de andré mainardi. sou lucas, editor do coletivo só.

abraços e obrigado por ajudar a divulgar o trabalho

Lucas said...

eu sou o lucas, autor do texto junto com o andré

grato por ajudar na divulgação desse trabalho

pup said...

Thanks! Great music!

levi leal said...

Afinal, o Lazzarini se chama Roberto ou Ronaldo? Na net existem inúmeras matérias usando um ou o outro. levigleal@hotmail.com

Capitan Aguirre said...

O nome dele é Roberto Lazzarini