Tuesday, August 17, 2010

Os Tápes - Canto da Gente (1975)




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Faixas:
01. Dança da lagoa do sol
02. Carreta
03. Janaíta
04. Versos perplexos
05. Cheraçar y apacuy
06. Gauchê
07. Homens de preto
08. Pedro Guará
09. Barqueiro
10. Canto da gente
11. Continente americano



Andando pelos pagos do Sul, nos encontramos 'Os-Tapes'. Nós os surpreendemos apresentando-se para o povo de Tapes, uma pequena cidade de 7.000 habitantes a 100 km. de Porto Alegre. O espetaculo se realizava num pequeno teatro de 140 lugares que depois soubemos ter sido montado pelo grupo a partir de uma velha casa que foi alugada. Os componentes de 'Os Tapes' — cuja idade média é 22 anos — são rapazes pobres e estão pagando a reforma do Teatro com o salário de comerciários ou funcionários da prefeitura. Quando o orçamento fica vermelho, eles o colorem de azul com o resultado de apresentações que fazem em bailes populares. Para assistir aos "Tapes" não se paga nada no seu teatro. Quem pode dá dois cruzeiros para ajudar nas despesas de conservação. "Os Tapes" são um exemplo inédito de amor à musica e ao Brasil. Vinham se recusando a aceitar propostas de gravação, pois envolviam concessões ao que se convencionou chamar de música comercial. "Os Tapes" não estavam interessados, como não estão, em ganhar dinheiro a custa do sacrifício das suas convicções sobre a música popular do Brasil. Como nós também não estamos, "Os Tapes" aceitaram nosso convite, pegaram um Ita aéreo no Sul e vieram gravar o primeiro disco que documenta o trabalho do grupo ao longo de quatro anos.

Os componentes do conjunto tem outras atividades além daquela que os reúne. Ensaiam todos os dias, pesquisam, criam e se apresentam para o povo de sua cidade nos fins de semana. Os recursos vocais e instrumentais de que se utilizam estão a serviçoo de sua arte e de sua criação, e não o contrário. O trabalho de "Os Tapes" deve, pois, ser julgado a partir desta colocação fundamental, considerando ainda o fato de o conjunto não ter podido ainda dedicar-se exclusivamente à tarefa comum que, entretanto, é a preocupação fundamental de cada um, pesquisar, criar e interpretar. Quando ouvimos, entre dezenas de fitas gravadas em nossa pesquisa do Sul, a música "Dança da Lagoa do Sol", verificamos ter descoberto algo de muito importante no processo dinâmico que deve ser a arte do povo. "Os Tapes" criaram, no Sul, um caminho que nos leva à musica mais expressiva da América Latina, o som nativo quichua e guarani. É a descoberta do elo perdido, é a mão estendida para ampliar a roda da grande ciranda dos povos americanos decultura latina. As fronteiras políticas não são fronteiras culturais, muito menos para alma andeja da gente do Sul. "Os Tapes" cantam — com suas flautas primitivas e seus curiosos instrumentos fabricados com bambus e taquaras — a musica mais latino-americana já criada no Brasil. Já era tempo de o Brasil assumir o seu lugar na grande assembléia permanente da cultura popular da América Latina. As fronteiras políticas são como o muro dos quintais das casas de subúrbios: por cima deles tudo se sabe, tudo se permuta, num processo permanente de intimidade e fraternidade.

Além de conhecer as riquezas da cultura popular do Sul, nós aprendemos com os "Tápes" a fazer churrasco — que eles fazem com fogo e paciência — a fazer arroz de carreteiro — que os condutores de carretas fazem na beira dos caminhos mistu~ando arroz, charque e o sal que eles dividem com os bois. Aprendemos, sobretudo, a tomar chimarrão, cujo amargo ficou logo adoçado pelo fraterno passar de boca em boca da cuia e da bomba. Segundo Elis Regina, gaucha ausente mas fiel, o chimarrão prolonga a vida. De nossa parte, sabemos que é um diabólico fabricador de saudade, porque ele aproxima as pessoas. "Os Tapes" trouxeram para São Paulo a sua única riqueza: uma cuia e uma bomba que os acompanham desde o começo do trabalho comum, uma cuia curtida por rodadas sem conta de erva e de emoçã0. Eles nos deram a cuia e a bomba de presente, no dia em que partiram de volta à sua cidadezinha de Tapes. E. no momento em que, em nome da amizade, se interrompia o giro permanente dessa cuia e dessa bomba, eu não soube dizer absolutamente nada, enquanto apertava fortemente a cuia com as duas mãos.

Texto de Marcus Pereira extraído da contracapa do LP

Fazer o download de Os Tápes - Canto da Gente (1975).

6 comments:

Geleiras said...

realmente, muito obrigado, estava que nem um louco a procurar.

batista garcia said...

Sou morador e filho de um dos fundadores do grupo, ele vai adorar ver que está na internet, o jeito maios democrático de divulgar o seu trabalho de longa data

Capital Social e Cidadania said...

sem palavras... uma contribuição fantástica para a cultura sulina... abraço ao meu amigo Cláudio Garcia (integrante do grupo)

Rosália said...

obrigada, estava a procura de músicas do grupo. muito bom

Gilberto said...

Temos que procurar e publicar, ou seja resgatar a obra deste grande grupo musical que deixou muita saudades no Rio Grande do Sul.
Tenho conhecimento de que alguns remanescentes do grupo ainda vivem em Tapes.Resgatem essas preciosidades.

Camila K. Garcia said...

Meu tio era um dos integrantes do grupo (Cláudio Boeira Garcia) e reside em tapes de novo agora.. e realmente.. trabalho deles é impressionante.. eu toco alguma coisa de violão e sempre tento passar adiante essas canções lindas..