Wednesday, January 13, 2010

Pedro Santos - Krishnanda (1968)




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Faixas:
01. Ritual Negro
02. Água Viva
03. Um Só
04. Sem Sombra
05. Savana
06. Advertência
07. Quem Sou Eu?
08. Flor de Lótus
09. Dentro da Selva
10. Desengano da Visita
11. Dual
12. Aranbindu



Algum colega blogueiro já notou, mas vale reafirmar a analogia. A terceira faixa de Krishnanda, “Um só”, possui versos no mínimo curiosos em relação à posição de Pedro Santos e do álbum, não somente em relação a sua época e, graças ao resgate em MP3, a nossa, mas em relação à música brasileira em geral: “… aquele que na palavra entender, no nome não se prender, pode ver bem quem eu sou. Mas quem no pé da letra cair, do nome não vai sair, porque no nome não estou…”

Pedro Santos, Pedro dos Santos, Pedro Sorongo, tocou com fulano, inventou instrumentos, entre os quais a Tamba, que dá nome ao renomado trio de jazz bossa, e realizou este álbum: pouco ou nada se sabe sobre este artista que “no nome não está”. De fato, não há informações disponíveis que possibilitem acessar mais adequadamente o trabalho de Sorongo. Inclusive, em relação a seus feitos, usarei os verbos no passado, pois nem sei ao menos se está vivo… Porém, a audição do álbum e a apreciação da breve história que colhemos via web, nos permite entrever fatos e detalhes. Por exemplo, tendo em mente a habilidade de Sorongo para criar instrumentos, identificamos na segunda faixa um chocalho d’água, cuja primeira ocorrrência que me vem à cabeça é o tocado por Jamie Muir em Lark’s Tongues in Aspic, quinto álbum do King Crimson. Mas não sei se este procedimento pode ser útil, pois o álbum exprime mais do que perspicácia técnica. O que se ouve em Krishnanda é produto de uma concepção sonora muito particular, mesmo levando em conta os prolíficos anos sessentas.

Após diversas audições, percebe-se o método a partir do qual o trabalho de Sorongo se desenvolve, e que confere a ele o estatuto de avis rara. Da bossa, do jazz e do samba-jazz ele absorve as concepções harmônicas, os arranjos de metal e o balanço. Subjacente às canções e temas musicais, camas de percussão que beiram a genialidade inscrevem o nome de Sorongo entre nossos grandes instrumentistas nesta seara. O disco abre com a batucada afro de “Ritual Negro”, permeada por vozes femininas, cujo tema central lembra tanto os ataques de metais da Orquestra Tabajara como os arranjos do Modern Jazz Quartet. Em “Água Viva”, o procedimento se repete: sobre uma cama rítmica inusitada, formada por kalimbas e chocalhos d’água, um naipe de metais desenha uma melodia à semelhança do estilo samba-jazz, lembrando a música de Moacir Santos. “Um Só” é composta por berimbaus e tambores, mas o que chama atenção é a qualidade da canção e da voz áspera de Sorongo. “Advertência” é uma experiência bastante afinada com alguns trabalhos contemporâneos que intercalam cacofonia e arranjos para orquestra. Os estrondos são acompanhados por orquestra wagneriana e tambores apocalípticos, produzindo talvez a faixa mais experimental do disco – junto com a riponga “Flor de Lótus”. “Quem Sou Eu” também admira pela qualidade meio pop, meio bossa da canção – às vezes lembram os afrossambas – e, finalizando, “Aranbindu”, uma singela melodia executada de forma lúdica e, ao mesmo tempo, com um certo grau de estranheza conferida pelo som do xilofone.

É estranho pensar que este álbum só veio à tona graças à era do MP3. E isso por alguns motivos que nos coloca questões estéticas e históricas de primeira ordem. Uma primeira questão, duchampiana, nos faz perguntar pela detecção dos elementos vanguardistas e como este trabalho depende de uma seleção que é feita de forma um tanto quanto arbitrária. Ora, o trabalho de Sorongo está em pé de igualdade com muitos discos da tropicália, e mesmo em relação a pseudo-bossa que inundava os festivais da época. Por que teria ele de emergir logo agora, que forças o mativeram no ostracismo por tantos anos? Uma outra questão curiosa é a semelhança que as experiências de Sorongo mantém com a fase setentista de Fela Kuti, que se pode conferir em “Desengano da Visita”. Mera coincidência? Provável, mas não há como tirar o mérito do compositor, de ter antecipado algumas divisões rítmicas, explorado suas potencialidades, criando inclusive soluções melódias e harmônicas perfeitamente condizentes com o “novo” ritmo.

Krishnanda certamente irá influenciar muitos trabalhos daqui pra frente, assim como os discos de Tom Zé, Caetano, Vinícius… E me pergunto que outros tesouros estarão escondidos pelos recantos do mundo, revelados quase diariamente pela gana pesquisadora dos bloggers. Essa enorme reserva, obnubilada pelos produtos eleitos, seja pela indústria, seja pela escolha popular, ainda poderá nos trazer outros “krishnandas”, o que implica em cogitar a hipótese de que entre passado e futuro se estabelecerá aos poucos uma relação de retroalimentação e atualização: o futuro identificando no “passado” seus elementos precursores, o passado renascendo e iluminando o futuro… E cá estou eu, filosofando sob a influência meio hippie, meio jazzy deste disco surpreendente.

Texto de Bernardo Oliveira


Apesar das evidentes qualidades de Krishnanda, a sensação que surge inicialmente é o espanto em saber que um disco como esses existe na história da música popular brasileira. É curioso que o disco não tenha nem mesmo menção na história dos discos malditos obscuros, como o disco tropicalista de Rogério Duprat ou o Paêbirú de Zé Ramalho e Lula Côrtes. Maior surpresa ainda: trata-se de um disco de 1968, incorporando samba, arranjos indianos carregados no expressionismo e África, além de contar com sons vindos de novos instrumentos e barulhos de natureza, como água e cantos de animais silvestres. Fosse um disco de meados dos anos 70, poderíamos traçar as influências: as misturas vêm da tropicália, os “sons de natureza” são inspirados em O Milagre dos Peixes de Milton Nascimento, o experimentalismo fragmentário vem do Caetano de Araçá Azul e dos discos de Walter Franco. Mas 1968 coloca Krishnanda como simultâneo dos primeiros e precursor dos outros: trata-se não somente de um OVNI enterrado nas camadas subterrâneas de nossa história, mas também de um trabalho que aponta para problemáticas musicais que viriam a aflorar nos anos seguintes.

Mas que fique claro que não é apenas um jogo de descoberta e fetiche pelo obscuro. O principal é o imprevisível, sim, mas também enorme talento em criar melodias, em criar bases percussivas e em especial em criar uma espécie de conjunto místico/religioso que encompassa organicamente geografias (Ásia, África e América) e culturas (religião hindu, panafricanismo) totalmente distintas. O que convence, em todo caso, é menos o conjunto – não é um disco que prima pela coesão – do que os lampejos brutos de inspiração: a melodia instrumental de “Ritual Negro” que abre o disco, a esquisitice proto-Tom Zé do riff de teclado (?) de “Quem Sou Eu?”, os agudos evocativos de “Flor de Lótus” e “Sem Sombra”, os trunfos de composição de canção que são “Água Viva” e “Desengano da Vista”. Por momentos, no entanto, o disco se instala num limiar meio perigoso entre pesquisa de timbres e easy listening, como testemunham as duas últimas faixas, “Dual” e “Aranbindu”, que são longe de essenciais. “Savana” e “Advertência” são peças climáticas e interessantes, mas a proximidade uma da outra acaba atrapalhando um pouco a fluência do disco, que não se comportará tão solenemente assim até o fim. Mas esses são apenas pecadilhos diante de um trabalho tão vigoroso e singular na música brasileira como é esse Krishnanda, que merece o quanto antes ganhar o reconhecimento devido.

Texto de Ruy Gardnier

Fazer o download de Pedro Santos - Krishnanda (1968).

30 comments:

Anonymous said...

Olá!
Só não vale promover ex-presidiários, como "BELO", que, além de um cantor medíocre, nada mais é do que um péssimo exemplo, não apenas pros adolescentes, mas prá todos que curtem o esse blog.
É de ficar indignado quando se vê a mídia (qual seja ela) dando espaço a cantores medíocres e, mais grave, que são os piores modeloes para a nossa juventude.

fperacoli said...

E quem é que está promovendo o Belo aqui no blog? Eu é que não sou....

Anonymous said...

Clássico, tempos que não ouvia esse som. Alta qualidade!

Henrique said...

Onde está o Belo? haha
vlw pelo album!

Anonymous said...

...valeu lembrar Pedro Santos, a unica coisa que ele não é inventor da Tamba assim divulgado outras vezes, na verdade foi ele que incorporou o uso de bambus no instrumento criado pelo produtor Helcio Miito em 1957.

André Teixeira said...

Opa! Já estou na 2ª audição do disco... de fato é muito bem elaborado e tem ares de outros sons que vieram depois sim. Segundo infos (nos comentários) do blog Camarilha dos Quatro (http://camarilhadosquatro.wordpress.com/2009/04/14/pedro-santos-%E2%80%93-krishnanda-1968-cbs-brasil/), o Pedro Sorongo morreu há 15 aos. Encontrei o endereço do Centro Cultural que leva seu nome:

CENTRO CULTURAL PEDRO SORONGO, que fica na Rua de Santana 209 - Centro / 2292-6864 / 8733-0130
Rio de Janeiro - Brasil

Obrigado por tudo! Já baixei VÁRIOS discos e acessei outros blogs. Valeu nmesmo pessoas!

GRANDE abraço!!!

A

F. Gomes said...

Novecentos paus esse disco no ML...

Diego de Moraes said...

Parabéns pelos textos e pelo blog!
Estou ouvindo esse Pedro Santos e impressionado com a viagem filosfófica e sonzeira!!!

Ah! E desconsiderem o moralismo imbecil do primeiro comentário lá! O cara é tão covarde (e medíocre- pra usar a expressão q ele cunha Pedro Santos) que se esconde atrás do cômodo "Anonymous".

A internet é fantástica, por causa de blogs como esse,
mas (por outro lado) possibilita idiotices de figuras como esse "Anonymous"...

Que aproveitemos o lado positivo da coisa!

Abração!


http://twitter.com/Diego_de_Moraes

Césars Wagner said...

Nossa velho, mto obrigado por esse achado. Concordo plenamento quando você se pergunta o que mais existe de "obscuro" em nossa cena musical...

To de cara com esse album.
Parabéns

PlumOcelot said...

This is a wonderful record - I have no idea why - it just inhabits its own little world.

Anonymous said...

Este álbum é incrível. Eu não entendo porque ele não é mais popular!! Discos como estes são o que fazem você continuar olhando e ouvindo música. Obrigado obrigado obrigado

das trombetas que viriam said...

que disco maravilhoso... o queixo não voltou pro lugar. muito obrigado mesmo.

das trombetas que viriam said...

que disco maravilhoso... o queixo não voltou pro lugar. muito obrigado mesmo.

Ricardo said...

Parabéns ao blog por por tamanha sensibilidade. Disco MARAVILHOSO de um músico mais MAVAVILHOSO ainda. Tem um álbum do Pedro com o Sebastião Tapajós que é outra maravilha! Raridades assim é o que queremos. Parabéns mais uma vez e que continuem sempre assim. Sou fã de carteirinha...

Ricardo Garcia said...

Parabéns pela postagem do álbum do grande Pedro dos Santos. São de blogs assim, com essa sensibilidade que precisamos, com uma internet tão conturbada. Tem um álbum do grande Pedro com outro grande Sebastião Tapajós. Parabéns mais uma vez, e continuem nessa trilha. Vida longa...

David da Silva said...

Valeu o download. Obrigado!
Conheci o trabalho do Pedro dos Santos qdo ele gravou com o Baden Powell em 1966 sua composição "Sorongaio" - ele mesmo acompanhando o violão imenso do Baden com o seu sorongo extratosférico.
Abraço!

Leo Rugero said...

Pedro dos Santos, saudoso Pedro Sorong é uma eminências pardas de nossa música. Influenciou a todos,tendo se autopromovido muio pouco.Ficará na saudade este grande música que atuou em quase todos os segmentos da música brasileira.

afrhum said...

Será o mesmo Pedro Santos "Sorongo" que participa do disco do grupo chama
do "Passport",e que tem o nome "Igua
çu"liderado pelo saxofonista Klaus Doldinger.O Pedro se encarrega da per
cussão,criação de efeitos,o trabalho é de 1977.E o cara manda vê e ouvir.

Anonymous said...

Ed Motta também curte Sorongo

http://www.youtube.com/watch?v=CbeTjlsvT3Q

Anonymous said...

Tem discografia do BELO?

Vagalumeazul said...

Oba! Muito bom Krishnanda, Pedro Sorongo e seu baticum pra lá dos anos 3000. Muito bom teu blog. Mui grata pelos saques. abçs

marcelo said...

a quem interessar, tenho o vinil para venda. é uma reedição limitada de 500 cópias.

marcelo said...

tenho este álbum em vinil para venda. é reedição limitada em 500 cópias. a quem interessar entre em contato.

Lys Araujo said...

Sou Lys Araujo, filha de Pedro Sorongo.

Criei um blog para ele : www.pedrosorongo.blogspot.com

Muito boa esta postagem, obrigada!!

Digo aqui que esta tiragem de 500 cópias feita na Europa em 2010, em vinil, é PIRATA ! Não pagando-se os direitos autorais,nem à Sony, muito menos aos herdeiros. Portanto é crime a sua comercialização!!

Ele já sofreu muito em sua vida para viver dignamente de sua arte, num país que não valoriza seus artistas.

Quem quiser este disco que o baixe da internet, não alimente este comércio ilegal.

Como diz o Sorongo na sua música 'Conflito': "um faz, outro desfaz, vida de morte num mundo que não tem paz.."

Lys Araujo said...

Ah, outra informação equivocada:
a Tamba é um conjunto de instrumentos, como uma bateria,uma marca, criada pelo Helcio Milito (produtor do Krishnanda), a qual foram incorporados os bambús, criados pelo Sorongo, e DOADOS ao Hélcio...

Lady Lilith said...

Encontrei o blog da filha dele...
http://pedrosorongo.blogspot.com/p/instrumentos.html

Flávio Borgneth said...

Maravilhoso cara!

Eduardo dos Santos said...

Sem palavras... cara, fui agraciado com mais essa pérola e te digo com muita segurança que foi um dos melhores que baixei nos últimos tempos... to ouvindo esse disco boquiaberto... sem palavras pra expressar essa maravilha!!! sensacional!!! Blog é phoda pacaralho!!!

Eduardo Cambalacho Tupiniquim

edlorado said...

thanks great!

Kbiludo said...

Muito bom o disco , eu acredito que nessa musica "um só " , ele usa a mesma ideologia usada pelos mutantes no album "O A e O Z", que inclusive é a teoria que eu acredito. Como tudo no mundo é composto por energia , por exemplo , uma mesa é composta por milhares ou bilhares de átomos , que são energia assim como qualquer outra coisa no mundo ,nós tambem somos energia. Nessa crença , acredito que essa energia é uma só , composta por tudo e todos , ou seja eu sou você assim como sou todas as coisas. Em um dos versos ele deixa claro isso : "...eu sou, um pedacinho de nada e um pedacinho de cada dentro de tudo que há..." . E , na frase falada no texto acima , “… aquele que na palavra entender, no nome não se prender, pode ver bem quem eu sou. Mas quem no pé da letra cair, do nome não vai sair, porque no nome não estou…” ele explica , que se você ler ao pé da letra , sem ideologia nao fará sentido algum. Nao sei se isso está certo , mas é a minha visão sobre essa musica.. vlw ,abraço